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Desequilíbrio: loucura ou emoção?

O metalúrgico Tarciso Marta passou mais de 20 anos de sua vida cuidando de sua esposa, vítima de desequilíbrios emocionais e taxada como “louca” por todos os médicos que passou. A sua luta serviu para desvendar as dificuldades que as pessoas que dependem do sistema público de saúde têm para tratar seriamente este problema.

O metalúrgico Tarciso Marta lança, no dia 14 de dezembro próximo, às 20h, na Biblioteca Municipal de Guarulhos, o seu livro intitulado Desequilíbrio: loucura ou emoção, publicado pela Paulo Comunicações e Artes Gráficas. A obra é um testemunho emocionante sobre a sua vida marcada por mais de 20 anos ao lado da esposa, vítima de desequilíbrios emocionais. Tarciso faz uma crítica feroz ao sistema público de saúde, particularmente na área de saúde mental, onde ainda prevalece a idéia de taxar todas as pessoas como “loucas”, de tratar somente com medicamentos e internações em manicômios onde ainda imperam os castigos, os eletrochoques e outras violências.

“Minha esposa começou a ter desequilíbrios em 1961, quando tinha 15 anos. Ela sofreu muita violência dos irmãos e isto causou traumas profundos no seu inconsciente. Tinha quatro irmãos que constantemente a espancavam. Quando foi internada pela primeira vez, o médico achou que os seus desequilíbrios eram fruto de problemas orgânicos, da puberdade, da adolescência”, conta Tarciso. “Assim que ela melhorava, os irmãos voltavam a agredi-la e o problema retornava”.

Segundo Tarciso, a coisa piorou quando ela foi internada em Franco da Rocha. “Aí a coisa degringolou: tomou eletrochoques, castigos, foi tratada como louca e ela não era”. Tarciso conta ainda que alguns evangélicos achavam que ela estava “possuída”. E, assim, com diagnósticos incorretos, ninguém atacava o problema central dela que era, de fato, os traumas de infância que ficaram represados no seu subconsciente.

Tarciso conta que os médicos limitavam a receitar medicamentos que somente minoravam o problema. Diante disto, ele resolveu encarar a parada. E a luta foi difícil. “Não podíamos parar numa casa, ficávamos no máximo três meses, pois ela começava a ter visões, cometeu várias tentativas de suicídio e outros problemas”. No ano de 1982, Tarciso conheceu uma Clínica Psicossomática e resolveu aderir à idéia. Fez alguns cursos, leu vários livros sobre o tema para inteirar-se do assunto. E também resolveu encarar os médicos. “Médicos diziam que o problema era hereditário. Aí eu questionava - se era hereditário, como os meus dois filhos não tinham problemas?”.

Esta peregrinação de Tarciso serviu para que ele conhecesse a face real da psiquiatria no país. “A esmagadora maioria dos que estão internados não são loucos, são pessoas que sofrem desequilíbrios por fatores emocionais, o que exigiria um trabalho individualizado, interdisciplinar, terapia e tudo mais. Mas é muito mais rentável para os hospitais que recebem verbas do SUS internarem todos e enfiarem medicamentos produzidos pelas multinacionais do ramo farmacêutico”, conta.

Tarciso conta que conheceu casos bem mais graves que o da sua esposa e que foram solucionados com um tratamento adequado. “Eu questiono se os psiquiatras estão de fato comprometidos com a cura do paciente. Mandei até uma carta para a OAB e outros órgãos sobre isto e minha carta sumiu”.

O livro, segundo Tarciso, foi idéia do Padre Gino que o visitava sempre para dar um apoio quando morava na Cohab-Itaquera, na capital. “Escrevi este livro à mão, durante o serviço, no meio das máquinas, nas madrugadas, sob pressão das chefias e da empresa que diziam que queriam alguém que trabalhasse e não um escritor. Minha filha ajudou muito fazendo a revisão e agora espero que esta obra seja um alerta para que se reveja a forma como a saúde mental é tratada no país.”

Desequilíbrio: loucura ou emoção
Autor: TARCISO MARTA
Editora: Paulo Comunicações e Artes Gráficas Preço: R$15,00

Lançamento dia 14 de dezembro, 20h, na Biblioteca Municipal
ANO XV - Nº 66
NOVEMBRO DE 2001



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